sábado, 17 de dezembro de 2011

O Jogo da Morte, no 3º Reich.

A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comoventes, mas seguramente nenhum foi tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dinamo de Kiev nos anos 40.

Os jogadores realizaram um partida sabendo que se ganhassem seriam mortos, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, pelo seu dramatismo, outro caso similar no mundo. Para compreender a sua decisão, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e porque um simples encontro de futebol representou para eles o momento crucial das suas vidas.

Tudo começou em 19 de Setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazi, tendo os exércitos de Hitler aplicado um regime de punição impiedoso, arrasando tudo, e todos que lhes fizessem frente.

A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazis, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver em casas. Assim, todos deambulavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido guarda-redes do Dinamo de Kiev.

Josef Kordik, um padeiro alemão, era um apoiante fanático da equipe de futebol do Dinamo. Um dia enquanto caminhava numa rua, olhou para um mendigo e de imediato reparou que aquela figura esquálida e andrajosa, era o seu ídolo: o gigante guarda redes, Trusevich.

Mediante artimanhas, o comerciante alemão, enganou os seus compatriotas, e contratou Nikolai Trusevich, o guarda redes para trabalhar na sua padaria. A ânsia, provocada pela vontade de ajudar foi valorizado pelo jogador, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um tecto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade e poder ajudar o seu idolo.

Na convivência, as conversas giravam sempre em torno do futebol e do Dinamo de Kiev, até que o padeiro teve uma ideia genial: sugeriu a Trusevich que em vez de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a procurar o resto dos seus colegas de equipe. Não só continuaria a pagar-lhe, como juntos podiam salvar os outros jogadores. Trusevich, ercorreu o que restara da cidade devastada, dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, os seus colegas da équipe de futebol do Dinamo.

Kordik deu trabalho a todos, esforçando-se para que ninguém descobrisse a manobra.Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e incorporou-os na equipe em formação. Em poucas semanas, a padaria escondia entre os seus empregados uma equipe de futebol completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o passo seguinte, e decidiram, alentados pelo seu protector, voltar a jogar. Era, para além de escapar ao rigoroso control do exército ocupante, a única coisa que sabiam fazer. Muitos tinham perdido as suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última rotina, mantida das suas vidas anteriores.

Como o Dinamo era uma entidade proscrita, proibida, tiveram que dar um novo nome áquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através dos sue contactos alemães começaram a desafiar as equipas de soldados inimigos e selecções formadas no III Reich.

Em 7 de Junho de 1942, jogaram a sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. O seu rival seguinte foi a equipa de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois deram 11 a zero, a uma equipa romena.

A coisa ficou séria quando em 17 de Julho enfrentaram uma equipa do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazis começaram a ficar incomodados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e procuraram reunir uma equipa mais bem organizada, para derrotar aquela equipe de maltrapilhos, esfomeados. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de os derrotar, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou 3 a 2 num segundo jogo.

Em 6 de Agosto, convencidos da sua superioridade, os alemães prepararam uma equipa com membros da Luftwaffe, o Flakelf, esta sim, uma grande equipa de futebol, que era utilizada como instrumento de propaganda, pelos generais de Hitler.

Os alemães tinham resolvido encontrar a melhor, a mais forte equipe que pudesse acabar de vez com a invencibilidade do FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo Ucraniano. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de desportivismo dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.

Depois desta escandalosa derrota da equipa de Hitler, os alemães descobriram a manobra de Josef Kordik, o padeiro. Face aos acontecimentos, Berlim decretou a morte de toda a equipe, inclusivé a morte do padeiro. Mas os esbirros nazis locais não se contentaram só com isso. Não queriam que a última imagem da equipe Ucraniana, fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no desporto, era uma obsessão de Hitler e dos altos comandos alemães. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar a equipa num outro jogo.

Com um clima tremendo de terror, pressões e ameaças sobre todas as partes, anunciou-se o jogo de desforra para 9 de Agosto, no estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:

"Vou ser o árbitro do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazi.

Já em campo, os jogadores do Start, levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: -"Heil Hitler !", gritaram - "Fizculthura !", uma expressão russa que proclamava a cultura física.

Os alemães marcaram o primeiro golo, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo a ganhar por 2 a 1.

Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:

"Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial das SS. Os jogadores, aterrorizados, pensaram em não voltar para o segundo tempo. Mas ao pensarem no que poderia acontecer ás suas famílias, e em homenagem a todos os seus apoiantes que nas bancadas, os incentivavam, decidiram regressar ao terreno de jogo.

E aí, deram um verdadeiro "baile" á equipe alemã. Perto do fim do jogo, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o guarda redes alemão. Driblou-o, deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar isolado, em frente á baliza, quando todos esperavam o golo, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de superioridade total. O estádio explodiu em uníssono num grito de vitória, de revolta, ante o olhar incrédulo dos alemães.

Com toda a cidade de Kiev, atenta ao acontecimento, os ocupantes germânicos, deixaram que todos saíssem do campo como se nada tivesse acontecido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois desta última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Josef Kordik, o padeiro. Os demais foram presos e enviados para os campos de concentração de Siretz. Aí assassinaram brutalmente, Kuzmenko, Klimenko e o Trusevich, que morreu envergando a canisola do FC Start.

Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em Novembro de 1943. O resto da equipa foi torturado até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um lugar vitalício, gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, ergue-se actualmente um monumento que recorda aqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os apoiantes do Dinamo, vale mais que todas as jóias do mundo. Ali figuram os nomes dos jogadores. Abaixo a única foto que se conserva da heróica equipa do Dinamo e o nome dos seus jogadores.

Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e o seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios.

No estádio Zenit uma placa diz

"Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazi".

1 comentário:

Óscar Costa disse...

Não conhecia este marco histórico da história Ucraniana. Muito bom de ler